Crise de pânico: o que é, por que acontece e o que fazer no momento

Uma crise de pânico pode parecer um infarto. Entenda o que acontece no seu corpo, por que não é perigoso — e o que fazer durante e depois de uma crise.

Dra. Aline Fante O. Carderelli
Dra. Aline Fante O. Carderelli

Médica · CRM-PR 43.134 · Saúde Mental

Médica especializada em saúde mental com atendimento em Arapongas e Marialva, PR. Conteúdo baseado em evidências clínicas e revisado pela própria autora.

O coração dispara sem aviso. A respiração some — parece que o ar simplesmente acabou. As mãos formigam, a visão turva um pouco e, no centro de tudo isso, uma certeza absurda: estou morrendo agora.

Não tem motivo aparente. Estava no carro, no trabalho, no meio de um almoço. E do nada, o próprio corpo parece ter virado o inimigo.

Quem já passou por uma crise de pânico sabe que palavras não dão conta da intensidade daquele momento. E quem nunca passou acha que a pessoa está exagerando.

Isso tem nome. E tem tratamento.

O que é uma crise de pânico?

Uma crise de pânico — também chamada de ataque de pânico — é uma ativação súbita e intensa do sistema nervoso autônomo sem que haja um perigo real presente. O organismo entra em modo de emergência como se uma ameaça concreta estivesse acontecendo, quando na verdade não está.

É diferente da ansiedade cotidiana, aquele nervosismo antes de uma apresentação ou a preocupação com algo que pode dar errado. A crise de pânico é abrupta, atinge pico de intensidade em minutos e costuma durar entre 10 e 20 minutos — embora pareça uma eternidade para quem está dentro dela.

Segundo o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), uma crise de pânico é definida pela presença súbita de pelo menos quatro entre os seguintes sintomas: palpitações, sudorese, tremores, falta de ar, sensação de sufocamento, dor no peito, náusea, tontura, calafrios ou ondas de calor, dormência ou formigamento, despersonalização (sensação de estar fora do próprio corpo), medo de perder o controle ou “enlouquecer”, e medo de morrer.

O que acontece no corpo durante uma crise

O mecanismo central é a liberação súbita de adrenalina. O hipotálamo, interpretando uma situação como perigosa, aciona o sistema nervoso simpático — a resposta de “luta ou fuga” que evoluiu para nos proteger de predadores, mas que aqui dispara sem nenhum predador à vista.

O que acontece em sequência:

  • O coração acelera para bombar mais sangue aos músculos
  • A respiração fica rápida e superficial — hiperventilação — o que reduz o CO₂ no sangue e causa tontura, formigamento e sensação de irrealidade
  • Os vasos sanguíneos periféricos se contraem — daí as mãos frias, a palidez, a dormência
  • O sangue se concentra nos grandes grupos musculares, deixando o trato digestivo de lado — explicando a náusea e o desconforto abdominal
  • O cérebro entra em estado de hipervigilância, varrendo o ambiente em busca da ameaça que ele mesmo criou

Tudo isso é fisiológico. Os sintomas são físicos e reais — não são “coisa da cabeça” no sentido pejorativo. A origem é neurológica, mas a experiência é completamente corporal.

Por que parece um infarto (e como diferenciar)

A semelhança entre crise de pânico e infarto é fonte de muita angústia — e de muitas idas a prontos-socorros. É completamente compreensível: taquicardia, dor no peito, falta de ar, formigamento no braço. Os sintomas se sobrepõem de forma significativa.

Algumas diferenças que médicos consideram na avaliação:

  • No infarto, a dor tende a irradiar para o braço esquerdo, mandíbula ou costas, e é mais constante e progressiva
  • Na crise de pânico, os sintomas atingem um pico e depois cedem — o quadro é autolimitado
  • O infarto costuma trazer sudorese fria e profusa e uma sensação de opressão torácica que não melhora com mudança de posição
  • Na crise de pânico, o contexto psicológico muitas vezes é identificável depois — estresse acumulado, privação de sono, conflito emocional

Mas aqui vai um aviso importante: não tente se autodiagnosticar no meio de uma crise. Na primeira vez que alguém tem sintomas assim, a avaliação de emergência é necessária. O diagnóstico de crise de pânico só é feito depois de excluir causas orgânicas — cardíacas, hormonais, neurológicas.

O ciclo do pânico: o “medo do medo”

Quem tem crises recorrentes conhece um fenômeno que os especialistas chamam de ansiedade antecipatória — o medo de ter outra crise.

Funciona assim: depois de uma crise intensa, o cérebro passa a monitorar constantemente qualquer sinal corporal que possa indicar uma nova crise. O coração acelerou um pouco? Atenção máxima. Ficou levemente tonto? Alarme. E essa hipervigilância, por si só, gera ansiedade — que aumenta a probabilidade de desencadear uma nova crise.

Forma-se o ciclo do pânico: crise → medo de ter nova crise → ansiedade → nova crise.

Para tentar se proteger, muitas pessoas começam a evitar lugares ou situações associadas às crises — o shopping, o metrô, locais movimentados, ficar sozinha em casa. Essa evitação alivia no curto prazo, mas consolida o transtorno no médio e longo prazo. O cérebro aprende que o perigo é real — e o ciclo se fecha ainda mais.

O que fazer DURANTE uma crise

A primeira coisa — e a mais difícil — é não lutar contra a crise. O instinto é resistir, controlar, fugir. Mas a luta amplifica. A aceitação, paradoxalmente, reduz a intensidade e a duração.

Respiração diafragmática

É a ferramenta mais acessível no momento da crise. A técnica clássica:

  • Inspire pelo nariz contando 4 segundos, deixando a barriga expandir (não o peito)
  • Segure o ar por 7 segundos
  • Expire pela boca lentamente por 8 segundos

A expiração prolongada ativa o sistema nervoso parassimpático — o freio do organismo. Não vai acabar com a crise instantaneamente, mas reduz a hiperventilação e sinaliza ao cérebro que não há perigo imediato.

Técnica de ancoragem 5-4-3-2-1

Funciona trazendo a atenção para o momento presente, interrompendo a espiral de pensamentos catastróficos:

  • 5 coisas que você vê ao redor
  • 4 coisas que você consegue tocar — a textura da cadeira, o tecido da roupa
  • 3 coisas que você ouve — o barulho do ar-condicionado, vozes distantes
  • 2 coisas que você consegue cheirar (ou se lembra de um cheiro que gosta)
  • 1 coisa que você consegue saborear

A ideia é simples: você não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Quando a atenção está ancorada nos sentidos, ela está menos no turbilhão interno.

Lembre: vai passar

Durante a crise, parece que vai durar para sempre. Não vai. A resposta adrenérgica é fisiologicamente autolimitada. Mesmo sem fazer nada, a crise cede. Saber disso — e lembrar disso ativamente durante a crise — ajuda a reduzir o medo.

O que fazer APÓS uma crise

O período depois da crise é tão importante quanto o momento durante.

Não transforme a crise em catástrofe na sua narrativa interna. Reler o que aconteceu como “quase morri” ou “estava enlouquecendo” alimenta a ansiedade antecipatória. O que aconteceu foi intenso e assustador — mas foi uma crise de pânico, não uma emergência médica.

Não evite o contexto. Se a crise aconteceu num restaurante, voltar a restaurantes (quando possível) é terapêutico — mesmo que desconfortável. A evitação ensina ao cérebro que o perigo era real.

Não se isole. Contar para alguém de confiança o que aconteceu reduz a vergonha e o isolamento que frequentemente acompanham o transtorno.

Busque avaliação médica. Especialmente após a primeira crise, ou se as crises estiverem se repetindo.

Quando a síndrome do pânico precisa de tratamento médico

A crise de pânico isolada pode acontecer com qualquer pessoa em momentos de estresse extremo. O transtorno do pânico — a síndrome — é quando as crises se tornam recorrentes e passam a afetar a vida.

Alguns sinais de que é hora de buscar avaliação:

  • Mais de uma crise por mês, especialmente sem fator desencadeante claro
  • A ansiedade antecipatória já está presente de forma consistente — você passa muito tempo com medo de ter outra crise
  • Começou a evitar lugares, situações ou atividades por causa do pânico
  • O medo das crises está limitando trabalho, relações ou qualidade de vida

O tratamento funciona. A combinação de terapia cognitivo-comportamental com manejo farmacológico, quando indicado, permite que a grande maioria das pessoas retome a vida sem as amarras que o transtorno impõe. Não é preciso simplesmente aprender a conviver com isso.


Se você chegou até aqui, provavelmente reconheceu algo nessas linhas — na sua própria experiência ou na de alguém próximo. O primeiro passo não é difícil: é uma conversa com um profissional que sabe distinguir o que é orgânico, o que é psiquiátrico e o que cada caso precisa.

Se você se identificou com os sinais descritos neste artigo, agende uma avaliação médica. Atendo presencialmente em Arapongas e Marialva, e também online para todo o Brasil.

Dúvidas frequentes
sobre este tema

Não. A crise de pânico é autolimitada — começa, atinge um pico de intensidade e passa, geralmente em 10 a 20 minutos. O coração acelera, a pressão sobe momentaneamente, mas não há risco cardíaco real causado pela crise em si. Dito isso, a avaliação médica continua importante para descartar causas orgânicas — especialmente na primeira crise, quando a diferenciação de causas cardíacas precisa ser feita por um profissional.
Os sintomas se sobrepõem muito: taquicardia, falta de ar, dor no peito, sudorese. No infarto, é mais comum a dor irradiar para o braço esquerdo ou mandíbula, a sudorese ser fria e intensa, e os sintomas piorarem progressivamente em vez de atingirem um pico e cederem. Mas só a avaliação médica confirma — nunca se autodiagnostique diante de dor no peito intensa ou sintomas novos.
Tem tratamento altamente eficaz. A combinação de terapia cognitivo-comportamental (TCC) com farmacoterapia, quando indicada, permite que a grande maioria dos pacientes alcance controle completo das crises e retome a vida sem as limitações que o transtorno impunha. O prognóstico com tratamento adequado é muito bom.